HPV - Que bicho é esse?

  Mauro Romero Leal Passos*

      HPV é uma sigla em inglês: Human Papillomavirus que em português é Papillomavírus Humano. É um vírus que está subdividido em mais de 100 tipos diferentes. Esses tipos recebem um número, exemplos: 6, 11, 16,18...

     É relatado na ciência médica que alguns tipos são mais agressivos (oncogênicos) do que outros. É citado ainda, que cada tipo pode causar diferentes manifestações clínicas. Assim, sabemos que os tipos 6 e 11 são mais causadores de condiloma acuminado ou verrugas genitais, popularmente conhecidas como “crista de galo”. É típica doença benigna.

     Já os tipos 16 e 18 estão intimamente ligados com lesões neoplásicas, com possível evolução maligna (câncer) nos genitais.

     Embora seja muito falado que os HPV de alto risco (16,18...) possam causar câncer no colo do útero e até no ânus, essa evolução não ocorre em todos os casos. Na verdade, mesmo que se instale uma lesão pré-maligna tipo neoplasia intraepitelial, a possibilidade de regressão da lesão é maior do que 50%. Todavia, ainda não é possível saber quem com uma alteração vai ter cura espontânea ou evoluir para um câncer. A determinação de um marcador de evolução será de valia inestimável, quando puder ser amplamente usado, em saúde pública.

     Sabemos, porém que, fumantes e portadoras de outras infecções conjuntas no colo do útero como, herpes e clamídia ou portadoras do HIV, estão mais susceptíveis de evolução para casos severos.  É relatado, ainda, que predisposições individuais, genéticas, para malignidade, podem acelerar tais processos. No entanto, ainda não é possível detectar essas últimas alterações, com os recursos científicos disponíveis.

     Trabalhando com a medicina por evidência científica, atualmente já se pode afirmar que estudos genéticos com HPV demonstraram que essas infecções poderão seguir três cursos:

-         Apresentar-se como infecções transitórias, em cerca de 50% dos casos, com completa eliminação do vírus, caso o organismo esteja imunologicamente competente.

-         Determinar o aparecimento de lesões que, por sua vez, podem regredir espontaneamente em 30 a 50% dos casos.

-         Evoluir para lesões que, mesmo após tratamento, não conduzam à eliminação viral, estabelecendo infecções persistentes, resistentes aos tratamentos convencionais, as consideradas de alto risco para desenvolvimento de câncer.

 

     O HPV é um vírus muito disseminado no mundo e, embora seja proclamado como um vírus freqüente no ser humano, sua evolução para causar um câncer é episódio raro.  

     Existem bons estudos documentando que uma NIC – Neoplasia Intraepitelial Cervical (colo do útero) de grau leve, tem regressão aproximada de 57% e tem progressão para câncer invasivo em 1%. A de grau moderado, regride em 43% e progride em 5%. Mesmo a de grau severo ou acentuado, que é considerada um carcinoma in situ (não invasivo) pode regredir em até 32% e tem taxas de progressão superior a 12%.

     Em todos os estágios de NIC há possibilidade de tratamento eficaz e até simples, evitando evoluir para doença invasiva.

     Outro dado importante é que nem tudo que parece é com certeza.

     Existem situações em que um exame, principalmente o Papanicolaou (preventivo) sugere HPV; porém, na verdade, não é HPV.

     Por outro lado, há casos em que tem HPV, mas ele está ali de passagem, sem significar alterações importantes.

     É imperativo não se apavorar frente um exame que mostre ser compatível com HPV.

     Acusar alguém de ter transmitido o HPV pode ser muito grave e até injusto. Até porque, o período de incubação do HPV pode ser indeterminado. Alguns citam três meses, outros relatam anos. Ainda não está claro todo esse processo. É possível, ainda, que cada parceiro sexual tenha o seu HPV, adquirido de uma terceira ou quarta pessoa, porém; se a sintomatologia em ambos ocorrer num mesmo tempo, cria possibilidade para acusações mútuas.

     De maneira geral, a infecção pelo HPV é conhecida como de transmissão sexual; todavia, encontram-se inúmeros casos onde a dificuldade em estabelecer a forma de transmissão é absurdamente grande. A questão torna-se mais complicada ainda quando apenas um dos parceiros sexuais apresenta clinicamente a doença. A pergunta: “Como e de quem peguei isso, doutor?” É invariavelmente por mim respondida: “Se eu pudesse garantir, ganharia o Prêmio Nobel”.

     Na experiência de muitos profissionais ocorrem dúvidas, tanto dos pacientes, como dos médicos e dos laboratórios, porque o ser humano não é uma equação matemática. Cada organismo tem seu potencial para enfrentar cada problema.    

     Uma conduta sensata, à luz do que sabemos hoje, 2001, pode ser: não supervalorizar uma hipótese, achando que estar com HPV é sinônimo de que vai virar um câncer; não acusar alguém de ter transmitido o problema; nem tão pouco negligenciar e achar que ele vai desaparecer sozinho.

     HPV é bicho vírus que só acomete o ser humano, podendo realmente regredir e desaparecer do organismo. Com os conhecimentos atuais, não é verdade dizer que uma vez com HPV sempre com HPV.

     Todavia, as pesquisas já documentaram sua participação no desenvolvimento do câncer do colo uterino, principalmente. Porém, a afirmativa seca de que HPV causa câncer, para mim, soa igual a dizer que árabe mulçumano é terrorista. Se, num avião, vai seqüestra-lo e joga-lo num arranha-céu. Tentar promover educação com medo pode não ser uma boa estratégia. No geral o medo passa.

     Um profissional que não cause temor, que não induza a acusações, que não peça um monte de exames desnecessários, que não mande o parceiro sexual fazer exames sem antes ter a certeza de que realmente a doença existe, será decisiva na condução serena e segura dos casos.

     Uma pessoa bem esclarecida, com alguma capacidade crítica e com bom senso, será capaz de identificar cada peça desse cenário.       

*Mauro Romero Leal Passos é médico, Professor Adjunto Doutor e,

Chefe do Setor de Doenças Sexualmente Transmissíveis da

Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ.

 

     
RESPONDENDO A PERGUNTAS FREQUENTEMENTE FEITAS  SOBRE HPV

Como, quando ou através de quem eu contraí HPV?

    O HPV genital é, primeiramente, um vírus sexualmente transmissível. É comumente impossível determinar de quem ou quando se adquiriu o HPV, porque a maioria das pessoas não sabe que o tem. HPV é muito comum, uma das mais comuns dentre as DST doença sexualmente transmissível.

 Pode uma pessoa contrair ou passar HPV através de sexo oral ou das mãos?

    Apesar do HPV poder ser transmitido por estas vias, tem sido muito difícil provar que isso acontece. Estudos recentes indicam uma relação entre HPV e alguns cânceres de cabeça e pescoço, mas a via de aquisição não é clara. Nem são comuns na prática médica.

 Como eu posso fazer um teste de HPV?

    Verrugas são diagnosticadas através da inspeção clínica visual. Na mulher, lesões cervicais relacionadas com HPV podem ser detectadas pelo teste de Papanicolaou (preventivo). Mulheres com o preventivo duvidoso podem passar por um teste de HPV (pesquisa de HPV por técnicas de biologia molecular, como captura híbrida) ou repetir o preventivo. Com muita freqüência o ginecologista lança mão de um exame simples, mas, muito útil; a colposcopia. Este exame, nada mais é do que exame ginecológico com espéculo vaginal, onde com um instrumento aumenta a imagem da genitália (vulva, vagina e colo), pode-se, com ajuda de soluções, enxergar lesões diminutas e incipientes na área.

Criteriosamente, em casos de exames citológicos ou histopatológicos (biopsia) de lesões genitais/anais não conclusivos, pode-se solicitar a pesquisa de DNA viral. Principalmente em mulheres com mais de 35 anos de idade.

 

Eu sempre terei HPV?

   Um sistema imune saudável suprime o vírus. É difícil, entretanto, saber quando o HPV está ou não no seu período de contágio, quando lesões não são bem evidentes. Especialistas discordam se o vírus é eliminado do corpo ou se ele é reduzido a níveis indetectáveis. A visão atual, porém, é acreditar que em muitos casos exista, realmente, o completo desaparecimento do vírus, quando a imunologia local (área do corpo onde o vírus foi introduzido) e geral estão equilibradas. 

 Como eu posso evitar adquirir e transmitir HPV?

    Geralmente pode-se dizer que a monogamia mútua por toda a vida e abstinência é as possibilidades para a prevenção. Todavia, existem inúmeros relatos de pessoas com HPV nos genitais que qualquer atividade sexual, na vida ou nos últimos cinco ou dez anos.  A maioria das pessoas sexualmente ativa terá chance de entrar em contato, com maior ou menor intensidade, com o vírus do papiloma humano.

    Preservativos previnem muitas infecções bacterianas e virais, mas se o HPV estiver presente em uma pele exposta, a transmissão será possível.

 O HPV pode afetar a gravidez ou o bebê?

    A maioria dos tratamentos para lesões cervicais com envolvimento de HPV mantém o colo uterino intacto o suficiente para preservar a fertilidade. Durante a gravidez, verrugas e lesões podem aumentar rapidamente. Verrugas podem ser removidas se estiverem sangrando ou obstruindo o canal do parto. HPV é raramente transferido da mãe para a criança. Em raros casos, HPV tipo 6 e11 podem causar crescimentos verrugosos na garganta de recém nascidos de mães com condiloma acuminado, condição conhecida por papiloma de laringe.

 HPV causa câncer?

    HPV pode causar câncer cervical (colo uterino), mas uma proteção regular e um tratamento supervisionado apropriado previne muitas mulheres de ter tal doença. Outros fatores (sistema imune, outras DST, fumo, genética, número de parceiros, uso de hormônios anticoncepcionais com altas doses de estrogênio) podem aumentar os riscos de câncer. Evidente que existe fatores da própria pessoa que ainda não são conhecidos.

    Pesquisadores estão buscando marcadores biológicos para se conhecer quem tem mais probabilidade de vir adoecer quando na presença de infecção por HPV. Infelizmente, a fase é de pesquisa. Porém, cada vez mais surgem trabalhos bem elaborados confirmando a íntima relação de HPV com lesões malignas de colo uterino, vagina, vulva, ânus e pênis. Contudo, muitos advogam que HPV e câncer cervical são como bolo de chocolate. Para sair o bolo, tem que ter chocolate, mas apenas com chocolate não se tem um bolo.

 O que eu devo dizer ao meu parceiro sobre HPV?

    Várias pessoas sexualmente ativas entrarão em contato com HPV. Para muitas, os sinais e os sintomas do HPV são apenas temporários. A maioria das pessoas não desenvolve sintomas, portanto elas não sabem que estão infectadas. Entendendo os impactos psicológicos, sociais e físicos do HPV elas ajudarão a colocar o vírus em perspectiva.

    Pode ser de grande ajuda, e quem sabe decisória, se além de uma conversa franca, o parceiro possa ter acesso a textos não aterrorizantes sobre o tema.

 Qual é a melhor opção de tratamento para o HPV?

    Ainda não existe uma medicação específica para o HPV, como os antibióticos para as doenças bacterianas. As lesões causadas por ele sim podem ser atacadas. O profissional trata as verrugas através de seu congelamento, cauterização e remoção ou prescrevendo cremes que são autoaplicados. Os tratamentos mais comuns para um preventivo anormal vão desde o simples acompanhamento até retirada da área afetada. Esta retirada pode ser somente da lesão ou chegar a remover uma parte maior do colo uterino (conização). Os pacientes devem questionar todas as opções de tratamento com o profissional que orienta o caso antes de decidirem por qual optar.

    É bem conhecido que pessoas com uma DST tem mais chance de ter outra DST. Assim, instituir rotina de pesquisa de clamídia, gonococo, sorologia para sífilis, para HIV, para hepatites virais, principalmente a B, são medidas usuais e necessárias. Isso porque, tratando infecções associadas DST ou não, fará com que ocorra melhora das condições de defesa da área. Com isso, a remissão das alterações causada pelo HPV pode se dar com mais facilidade.

    Cabe citar que todos esses exames não devem ser imposições médicas e sim medidas discutidas e compartilhadas entre profissional e cliente.

 Existe vacina para HPV?

    Ainda não. Mas, vários estudos estão sendo conduzidos, alguns no Brasil, já em fase adiantada. Circula pelos meios científicos, que os resultados são promissores e que uma vacina para os tipos mais ligados ao câncer, deverá estar em estágio comercial, com níveis importantes de êxito, em cinco anos.